Artigo
Emprego: Ficar ou Mudar
(Outubro de 1999, Talento)



Havia um paradigma de que o bom profissional era aquele que permanecia anos a fio na mesma empresa construindo uma carreira. Alguns afirmam que a rotação de emprego gera suspeita sobre a maturidade da pessoa, que ela ainda não se encontrou na vida, não sabe o que quer, que é difícil adaptação, inconstante. Se trocou de emprego várias vezes é porque tem algum problema. E, em breve, adotará a mesma atitude, deixando a nova empresa na mão. Enfim, uma personalidade não muito confiável.

Os mais antigos entravam como ascensorista ou office-boy e chegavam até a presidência da empresa. Isso é coisa do passado. Hoje o profissional necessita de habilidades pessoais e profissionais muito bem desenvolvidas para competir neste mercado globalizado.

Recentemente, iniciou-se uma campanha para criar outro paradigma: o profissional tem de trabalhar e mudar de emprego com freqüência para adquirir experiências diferentes. Se assim não fizer é porque é acomodado, incompetente, burocrata, teme novos desafios, não quer crescer. Ou ainda, não está globalizado.

O fato é que quem cria ou aceita paradigmas não pensa. Apenas reorganiza seus preconceitos. Pode ser que uma pessoa passou a vida inteira na mesma empresa por comodismo. Mas isso não é regra. ou será que quem mudou freqüentemente de emprego é porque tem uma personalidade inconstante? Também pode ser, mas não necessariamente.

As pessoas que defendem um ou outro paradigma esquecem-se de que para tudo há uma causa.E é nas causas que devemos buscar as respostas. Cada caso é um caso. Não existe regra.

A pessoa pode ter ficado 30 anos na mesma empresa porque realizou-se, gostou do trabalho, dos desafios, do mercado, aprendeu, evoluiu, fez cursos, conheceu gente interessante dentro e for a da empresa, fez uma carreira de sucesso, viajou, ganhou dinheiro e inúmeras outras razões que legitimam essa permanência. Ficou feliz. Sentiu-se realizado. Então para que mudar? Só para dizer que mudou? Se for assim, a pessoa estará mais preocupada com o que os outros poderão pensar dela do que com si mesma.

No outro extremo há profissional que passou por muitas empresas. Qualquer um pode não ter se adaptado a uma empresa, à sua cultura, aos seus superiores, por falta de oportunidades, sentir que o espaço era muito pequeno para suas ambições e muitas outras razões. Ou ainda, sentiu-se competitivo para buscar posições melhores no mercado.

Ah! Mas isso só pode acontecer uma ou duas vezes. Se as empresas não serviram para ele é ele que não serve para as empresas, diria o defensor do outro paradigma. Não podemos esquecer que o seu humano nunca estará pronto, definido. Ele muda, evolui, cresce, cria. Uns mais do que os outros, é claro.

A defesa desses paradigmas presta um grande desserviço, principalmente aos jovens que estão entrando no mercado profissional.

Recentemente, após uma palestra que realizei, fui abordado por três jovens na faixa de 22 anos, em final de faculdade. Eles queriam uma definição cartesiana sobre o que fazer: ficar numa empresa muito tempo ou trocar de emprego freqüentemente?

Eles desejavam uma e apenas uma resposta certa para esse problema, como se houvesse apenas duas respostas. Aquela dúvida gratuita na cabeça deles me sensibilizou, e fiquei ali conversando por mais de uma hora, após a palestra, para demonstrar que as duas alternativas são corretas.

Tentei explicar que a ênfase do nosso sistema educacional e cultural é nos ensinar que existe apenas uma resposta certa para os problemas. Entretanto, não há. Existem várias, mas as pessoas aprenderam que quando encontram a primeira resposta já se dão por satisfeitas. Param de procurar respostas alternativas depois de encontrar a primeira. Isso é lastimável, porque é após a segunda, terceira, décima alternativa que você tem opções para escolher a melhor. É preciso pensar diferente.

É uma irresponsabilidade dar uma orientação tão restrita: ou isso ou aquilo. Precisamos entender que ninguém tem a bola de cristal. A vida é um quebra-cabeça só que não vem com o desenho na caixa para que você saber como se monta.

No final, senti que aqueles três jovens entenderam que ficar muito tempo na mesma empresa ou mudar depende de inúmeros fatores que são imprevisíveis, tais como: você está satisfeito com o que a empresa lhe oferece? Por outro lado, a empresa estará satisfeita com que você está oferecendo? Também depende da personalidade de cada um.

Claro que todos querem ter sucesso profissional e orientam-se para esse objetivo. Porém, parte do que constitui o sucesso é a combinação do momento certo com a oportunidade. Howard Schultz disse: "A maioria de nós tem que criar as próprias oportunidades. Devemos estar sempre preparados para agarrar uma oportunidade que estamos vendo e os outros não". Isso pode acontecer numa única empresa ou em várias.

Essas pessoas se defendem ou tentam criar um novo paradigma não estão acostumados a pensar criativamente, buscando alternativas. Não conseguem pensar diferente. Ainda não se deram conta de que quanto mais alternativas produzirem melhor será a qualidade da idéia escolhida.

E eu lanço aqui uma nova campanha: todo paradigma é falso.

O importante é a pessoa estar com a mente aberta, estar consciente de seus valores e definir o que quer criar na sua vida e no seu trabalho.

 

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Antonio Carlos Teixeira
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